AfD pode conquistar primeiro governo estadual da extrema direita na Alemanha
Partido lidera pesquisas na Saxônia-Anhalt e pode governar sozinho, enquanto milhares protestam contra o avanço da legenda

A Alternativa para a Alemanha (AfD) pode conquistar neste domingo (6/9) um resultado inédito na política alemã desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Na Saxônia-Anhalt, estado do leste alemão, o partido de extrema direita lidera as pesquisas e pode conquistar, pela primeira vez no período pós-guerra, o comando de um governo estadual.
A votação faz parte de um mês decisivo para a extrema direita alemã. Depois da Saxônia-Anhalt, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Berlim irão às urnas em 20 de setembro, e a AfD também aparece fortalecida nos dois estados. Fundado em 2013 e hoje principal força de oposição no Bundestag, o Parlamento federal alemão, o partido vê a conquista de um governo regional como um possível trampolim para ampliar seu poder até a próxima eleição federal, em 2029.
O partido aparece com mais de 40% das intenções de voto, muito à frente da União Democrata Cristã (CDU), partido do chanceler Friedrich Merz, que está na faixa de 23% a 26%. A principal incógnita, porém, não é apenas se a AfD terminará a eleição em primeiro lugar, mas se conseguirá transformar sua votação em uma maioria absoluta no Parlamento estadual.
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Se isso acontecer, o partido poderá governar sozinho e tornar inútil, na prática, o Brandmauer, o “cordão sanitário” mantido pelos demais partidos alemães contra a extrema direita.
A Saxônia-Anhalt, território da antiga Alemanha Oriental, tem cerca de 1,7 milhão de eleitores aptos a votar. A região se tornou um dos principais redutos eleitorais da AfD, que transformou insatisfações relacionadas à economia, à imigração e às mudanças culturais em força política.
O homem que pode levar a AfD ao poder
O rosto da campanha da AfD na Saxônia-Anhalt é Ulrich Siegmund. Nascido em 1990, em Havelberg, no próprio estado, ele entrou para a CDU aos 19 anos e deixou o partido cinco anos depois para se filiar à AfD.
Ex-vendedor de perfume, Siegmund construiu durante a campanha uma imagem diferente da de muitos políticos tradicionais da extrema direita. Jovial, sorridente e carismático em suas aparições públicas, ele atrai multidões mesmo em pequenas cidades e mantém forte presença nas redes sociais.
Em agosto, a revista alemã Der Spiegel estampou seu rosto na capa com o título “O homem mais perigoso da Alemanha”. Siegmund respondeu à provocação passando a autografar exemplares da publicação durante seus comícios.

A popularidade de Siegmund acompanha o crescimento da AfD em relação à eleição anterior. Em 2021, o partido recebeu 20,8% dos votos na Saxônia-Anhalt. Agora, as pesquisas apontam para cerca do dobro desse percentual.
Se chegar ao governo, Siegmund pretende implementar um programa que prevê mudanças profundas em áreas como imigração, educação, cultura, meio ambiente e segurança.
Na migração, a AfD promete começar a deportar migrantes em situação irregular “desde o primeiro minuto”. Também pretende reforçar políticas de identidade nacional e substituir o atual slogan promocional do estado, “Think Modern”, por “Think German” (pense moderno e pense alemão, respectivamente, em tradução livre).
Na cultura, a legenda pretende restringir manifestações que considera anti-alemãs e reduzir drasticamente o financiamento da radiodifusão pública, descrita pelo partido como ligada à propaganda de esquerda. Na educação, defende substituir bandeiras do orgulho LGBTQIA+ por bandeiras alemãs nas escolas. Entre as propostas estão o ensino do hino nacional, classes separadas para filhos de solicitantes de asilo e mudanças no currículo de história.
A AfD também propõe permitir novamente o ensino domiciliar, proibido há décadas na Alemanha, ampliar o ensino da língua russa e eliminar programas voltados ao combate ao extremismo de direita.
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No meio ambiente, o partido quer impedir a instalação de parques eólicos. Na política de família, defende medidas para aumentar a taxa de natalidade alemã, incluindo um tipo de “dinheiro de boas-vindas” para casais que tenham filhos, redução dos custos com creches e refeições escolares gratuitas.
Na segurança, uma das propostas é promover mudanças no serviço de inteligência interno alemão, o BfV, que classificou o diretório da AfD na Saxônia-Anhalt como extremista de direita.
O partido também quer criar grupos de “vigilância cidadã” para auxiliar a polícia no combate ao que chama de extremismo de esquerda. Críticos compararam a ideia a estruturas auxiliares de policiamento utilizadas durante o período nazista.
Por que vencer a eleição não significa necessariamente governar
Mesmo liderando as pesquisas, a AfD não necessariamente assumirá o governo da Saxônia-Anhalt. A questão decisiva é a distribuição das cadeiras no Parlamento estadual.
Na Alemanha, os partidos precisam alcançar pelo menos 5% dos votos para conquistar representação parlamentar. Por isso, o desempenho das siglas menores pode ser decisivo para definir se a AfD conseguirá ou não formar governo.
Se vários partidos ficarem abaixo da cláusula de barreira, seus votos deixam de ser convertidos em cadeiras. Nesse cenário, a AfD poderá conquistar uma maioria absoluta no Parlamento mesmo recebendo menos de 50% dos votos.
Caso isso não aconteça, entra em cena o principal obstáculo político do partido: o Brandmauer. A CDU e as demais forças tradicionais afirmam que não pretendem formar uma coalizão com a AfD.
A formação de um governo alternativo, no entanto, também pode ser complicada. A CDU rejeita alianças tanto com a extrema direita quanto com a esquerda, o que pode dificultar a construção de uma maioria contra a AfD e abrir espaço para negociações complexas ou até para um governo minoritário.
Uma eleição regional que testa o governo de Friedrich Merz
O resultado da Saxônia-Anhalt terá consequências que ultrapassam as fronteiras do estado. Os governos estaduais alemães têm representação no Bundesrat, a Câmara Alta do Parlamento, e exercem influência sobre áreas como educação, cultura e segurança interna.
Por isso, a conquista de um governo regional daria à AfD uma nova fonte de poder institucional e poderia fortalecer a estratégia do partido de transformar seu crescimento eleitoral em influência nacional até a eleição federal de 2029.
Para Friedrich Merz, uma vitória da extrema direita, especialmente se resultar na formação de um governo estadual, também seria um teste para a estratégia da CDU de conter o avanço da AfD por meio do isolamento político.
Milhares vão às ruas contra o avanço da AfD
Na véspera da eleição, neste sábado (5/9), milhares de pessoas foram às ruas de Magdeburgo, capital da Saxônia-Anhalt, em manifestações contra o avanço da AfD e em defesa da democracia.
O principal ato foi organizado pela coalizão “Sachsen-Anhalt. Weltoffen!”, que reúne organizações da sociedade civil, sindicatos, igrejas e outros grupos. A mobilização aconteceu no mesmo momento em que a AfD encerrava sua campanha para a eleição deste domingo.
Segundo informações divulgadas pela imprensa alemã com base em dados da polícia local, cerca de 6 mil pessoas participaram das manifestações. A programação incluiu uma caminhada pelo centro da cidade e um festival pela democracia no Domplatz.
Na noite anterior, mensagens contra uma possível vitória da AfD também foram projetadas nas fachadas da Catedral de Magdeburgo e do Parlamento estadual. Uma delas dizia, em tradução livre: “Não desistimos do que amamos. O verdadeiro amor à pátria não é a AfD.”