Luiza Barufi

A sexualidade sem tabus dos novos tempos

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Análise

Aborto no Senado: o que o debate político tem a ver com a educação sexual?

Entenda como o pânico moral bloqueia o acesso à informação e por que a educação sexual nas escolas é a ferramenta mais eficaz para proteger crianças e adolescentes

Publicado em 05/06/2026 às 06:00
Foto: Freepik

Discutir o direito ao aborto e a educação sexual no Brasil de hoje é um exercício exaustivo de paciência contra o retrocesso. Enquanto assistimos a movimentos no Senado, que tentam criminalizar ainda mais os corpos de mulheres e meninas, a realidade nos impõe um limite: precisamos encarar o consentimento, a saúde e a política sem os filtros do falso moralismo.

A teoria que transborda nas redes sociais — onde debatemos livremente sobre autonomia e orientação sexual — encontra uma barreira intransponível na prática de um país conservador. Fora das bolhas digitais, a sexualidade continua sendo um tabu trancado a sete chaves. E é justamente nesse silêncio que mora o perigo.

Enquanto o sexo for tratado como sinônimo de imoralidade, problemas graves como a gravidez precoce, o abuso sexual e o aborto inseguro continuarão caminhando lado a lado.

O silêncio que violenta a infância

A primeira reação do conservadorismo ao ouvir o termo “educação sexual” é o pânico; acreditam que as salas de aula serão usadas para induzir o início da vida sexual. Essa distorção deliberada ignora a urgência da nossa realidade. Como bem destacou a jornalista Cristina Fibe em sua coluna no Amado Mundo, “crianças e adolescentes são as principais vítimas de violência sexual no Brasil”. Ela apresenta dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que revelam um cenário devastador: a faixa de maior risco está entre os 10 e 13 anos, e a maioria absoluta das violações acontece em espaços privados, dentro de casa, por pessoas do convívio familiar.

Romper o tabu e ensinar as crianças a conhecerem e respeitarem o próprio corpo é o primeiro passo para que, no futuro, possamos falar sobre prazer de forma saudável. Diante de dados tão cruéis, o debate brasileiro ainda é tão retrógrado que nos obriga a desenhar o óbvio: a educação sexual é uma armadura de proteção.

Aí reside um grande paradoxo na política: setores que se autointitulam “defensores da vida” e vociferam contra o aborto são os mesmos que cruzam os braços para a dignidade de meninas que engravidam após serem estupradas. É uma lógica perversa que encena a defesa da infância na teoria, mas abandona a infância real na prática.

O alerta global da OMS

A ciência e a saúde pública são os nossos melhores argumentos diante deste cenário que quase parece sem soluções. E os dados mundiais provam que a desinformação cobra o preço mais alto possível: a vida das jovens.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as complicações ligadas à gestação são a principal causa global de mortalidade entre meninas de 15 a 19 anos. Para tentar conter essa tragédia, a OMS atualizou em 2025 suas diretrizes para a prevenção da gravidez na adolescência. Todos os anos, mais de 21 milhões de adolescentes engravidam em nações de renda baixa e média — e metade dessas gestações não foi planejada.

Além dos riscos biológicos óbvios, como infecções e partos prematuros, a gravidez precoce interrompe os estudos, destrói conexões sociais e empurra essas jovens para um ciclo perpétuo de pobreza e exclusão.

No Brasil, em vez de criarmos redes de acolhimento, caminhamos na contramão. Ignora-se que a vulnerabilidade social e a desigualdade de gênero dificultam o acesso a métodos contraceptivos. Em alguns lugares, o atendimento médico a essa jovem depende da aprovação de um adulto responsável — uma barreira burocrática que isola ainda mais quem foi violentada e precisa de socorro urgente.

O exemplo prático da Finlândia

Quando o Estado decide agir com base na ciência, os resultados aparecem. O Instituto Finlandês de Saúde e Bem-Estar divulgou que o índice de abortos no país caiu 66% entre 2000 e 2022 entre jovens de até 19 anos. Entre as menores de 18 anos, a redução foi ainda mais drástica: 78%.

Não houve milagre, proibição ou julgamento moral. A Finlândia identificou uma alta na gravidez adolescente e respondeu com política pública: distribuição gratuita de contraceptivos e ensino obrigatório de educação sexual.

Por aqui, essa mesma educação sexual — prevista na Base Nacional Curricular Comum (BNCC) — é demonizada pela extrema direita. É preciso repetir: ela não é um convite ao sexo.

  • Na infância: ensina a nomeação correta da anatomia. Uma criança que sabe dar nome às suas partes do corpo consegue identificar e denunciar um toque inadequado.
  • Na adolescência: evolui para o entendimento do consentimento, prevenção de ISTs e planejamento reprodutivo.

Quando a escola se torna um espaço seguro de diálogo, reduzimos as vulnerabilidades causadas pela ignorância. Conversar sobre isso com os filhos não é antecipar etapas; é proteger a saúde física e mental das nossas meninas.

Garantir o respeito político aos corpos femininos e resguardar os direitos de mulheres, crianças e adolescentes não pode ser uma pauta refém de moralismos anacrônicos no Senado. Olhar para as diretrizes da OMS e proteger a BNCC nas salas de aula é, no fim das contas, o único caminho real para quem deseja, de verdade, defender a vida.

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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