Luiza Barufi

A sexualidade sem tabus dos novos tempos

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Análise

A pressa mata a libido. A curiosidade erótica salva

Quando o cotidiano escancara tudo, o desejo seca. Mudar o ritmo do olhar é o nosso maior ato de resistência.

Publicado em 03/07/2026 às 06:00
Casal compartilhando momento de pausa e conexão para recuperar a libido na rotina
Mudar o ritmo do olhar e desacelerar a rotina: o primeiro passo para resgatar o erotismo e o desejo nas relações. Foto: Freepik

Chegamos ao meio do ano, e a sensação é de um semestre inteiro espremido na rotina, misturada à ansiedade das promessas e metas que ainda faltam cumprir até dezembro. Não há libido que se sustente. A lista de tarefas parece interminável, e o cansaço bate forte. Para muitos que não terão o privilégio de um recesso, até os grandes eventos coletivos — como uma Copa do Mundo operando como anestésico psíquico para aliviar as tensões — revelam o tamanho do nosso esgotamento.

E, no meio desse turbilhão de compromissos cronometrados, a primeira baixa costuma ser invisível, mas profundamente sentida: a nossa libido.

Não apenas do ato sexual (ou prazer sexual) em si, mas da libido em seu sentido mais amplo — o da energia vital, da busca pelo prazer, da capacidade de se encantar e vibrar. Uma agenda interminável de afazeres, em que cada minuto deve ser produtivo, simplesmente não deixa espaço para o erotismo. O desejo exige um luxo que parece estar cada vez mais inalcançável: a pausa.

A pressa do dia, o amor de longa data e a libido

Essa conta fica ainda mais cara nos relacionamentos de longo prazo. A psicoterapeuta Esther Perel, especialista em relacionamentos, propõe um paradoxo central para as relações duradouras: os mesmíssimos ingredientes que nutrem o amor — como a segurança, o cuidado e a previsibilidade — são, muitas vezes, os que sufocam o erotismo. Enquanto o amor busca aproximar para proteger, o desejo exige uma certa distância para respirar. Ele se alimenta do mistério, da novidade e do inesperado.

Perel afirma que o segredo para manter a chama acesa é reconciliar essa necessidade humana de estabilidade com a nossa fome de aventura. E a chave para abrir essa porta é a curiosidade erótica.

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Mas como se manter curioso diante de alguém com quem você já divide a cama, os boletos e a rotina há tantos anos? Com tanta estrada rodada, a tendência é acharmos que já sabemos tudo sobre o outro. É aí que o desejo seca. O excesso de transparência, o cotidiano escancarado, a pressa do dia a dia, a agenda lotada e a falsa certeza de que o parceiro é um livro totalmente lido matam o interesse. Para o desejo sobreviver, é preciso manter o outro um pouco estranho. É preciso preservar a privacidade e o direito ao mistério.

Que curiosidade é essa?

É fundamental não confundir as coisas. A curiosidade que renova o desejo não tem nada a ver com a curiosidade do controle, da desconfiança ou da insegurança. Não é o olhar vigilante que vasculha o celular da parceria ou monitora seus passos por medo de traição.

A curiosidade erótica é um ato de fé no desconhecido que ainda habita quem está ao nosso lado. É a capacidade de olhar para a parceria e entender que, por mais que haja intimidade, ele ou ela ainda é um indivíduo complexo, com um mundo interno próprio, desejos secretos e nuances que você ainda não domina.

Mudar o ritmo para recuperar o desejo e o olhar atento

E o que essa curiosidade tem a ver com a pressa? O tempo. Para um olhar erótico, um olhar de descoberta e de curiosidade genuína, mudar o ritmo pode ser a nossa maior alternativa de resistência. Precisamos desacelerar o fluxo de tarefas, mas também o ritmo do nosso olhar.

O desejo nasce da atenção e do sentimento de ser desejado. Na correria, nosso olhar para o outro se torna utilitário (“você comprou o leite?”, “pagou a conta?”). O convite aqui é exercitar um olhar atento. E não se trata de um movimento ensimesmado, focado apenas na própria performance, mas de um olhar direcionado para o outro. Olhar com vagar, perceber o outro fora do papel de “parceria doméstica” — talvez vendo-a interagir com terceiros, brilhando em seu trabalho ou imersa em um hobby. É nessa fresta, onde o outro se mostra autônomo, que o erotismo ressurge.

Salvar a libido e matar a pressa. Pausar a rotina exige a coragem de testar novas formas de estar junto. Exige desacelerar para dar espaço ao cultivo do erotismo. Afinal, o vínculo e a vitalidade de uma relação não se mantêm sozinhos; eles dependem da nossa disposição de parar, respirar e nos deixar seduzir pelo mistério que o tempo insiste em tentar esconder.

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