Luiz Mauricio Azevedo

Crítica literária, dicas, insights e tretas. Nessa ordem

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Análise

A maior escritora brasileira não nasceu no Brasil

Com os gênios, tudo é diferente. Seu primeiro romance, "Perto do coração selvagem", foi elogiado por Antonio Cândido. Surgiu escritora como Pelé na Copa de 1958

Publicado em 18/07/2026 às 05:58
Clarice Lispector - documentário TV Cultura - escritora
Clarice Lispector em rara entrevista na tevê, em 1977, ano de sua morte (reprodução/doc “Clarice Lispector – 100 anos”, da TV Cultura)

Clarice Lispector disse certa vez: “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera nada”. A opinião de alguém que escreve vale tanto quanto a opinião de um chef sobre o prato que acaba de cozinhar. O que ele acredita ter feito, os motivos pelos quais misturou canela com açúcar mascavo e tomilho, o que representa para a história da família dele, isso tudo pouco importa. Só o resultado interessa.

De boas intenções os depósitos das editoras e os restaurantes ruins estão cheios. O que vale é o que o autor de fato fez, se o livro é bom ou se o livro é ruim, e porque ele é bom e porque ele é ruim. Tá, tá, mas deixando de lado os aligots e as tapiocas defumadas, como se define que um livro é bom? Depende: um livro pode ser bom porque é bom para você. Um livro pode ser bom para você porque fala de coisas que você conhece de um jeito que você deseja que falem sobre as coisas. Mas isso só define o valor do livro para você.

E se você se considera o centro do universo, leia Copérnico. Um livro é bom porque reconstrói a tradição literária e reinventa a experiência da criação. Isso é algo muito difícil. E quando acontece dizemos que tal obra é genial. Contudo, um livro não precisa ser genial para ser bom.

Da mesma forma, o fato de ser bom não torna nenhum livro genial. Tudo na literatura é feito de circunstância, contexto e risco. Nessa ordem. Um livro que é bom hoje pode não ser no futuro. Um livro que era considerado ruim hoje pode não ser ruim no futuro, porque os riscos formais assumidos por quem o escreveu talvez sejam de difícil entendimento no momento da publicação da obra.

Leia mais: Quais livros mudaram sua vida? Escritores indicam obras que os fizeram repensar o mundo

Bem, com a própria Lispector não foi assim porque ela era diferente. Com os gênios tudo é diferente. As réguas todas quebram. Ela foi boa já de saída. Seu primeiro romance, “Perto do coração selvagem”, foi elogiado por nada mais nada menos que Antonio Cândido. Ela estreou no mundo da literatura como Pelé na Copa de 1958.

Nascida em Chechelnyk, em território ucraniano, veio para o Brasil muito cedo, cresceu no Recife, formou-se em direito e se tornou a maior escritora que esse país de escritores já viu. A principal característica de sua obra é a fuga de perspectiva: sempre que a autora fala da subjetividade do personagem atinge um paradoxo em que aparece em relevo a classe à qual pertence, mas ao mencionar a classe à qual pertence sobressai o caráter humano, performando uma universalidade que sabota, com ganhos estéticos, o caráter supostamente intimista de seus livros.

O resultado são livros carregados de homenagens ao poder libertador da linguagem, justamente porque
celebram a agonia angustiante de quem precisa empilhar palavras duras para poder descrever com eficiência a forma das coisas limpas. Em tempos em que o ser e o ter se confundem, seus livros duvidam da força das identidades íntimas e sabotam os poderes da posse.

A escritora nos torna refugiados de nós mesmos

Dentro de suas obras nos tornamos aquilo que sempre somos sem saber: refugiados de nós mesmos. Manipulando a eloquência que o silêncio pode emprestar àquilo que desejamos dizer, Lispector compunha frases que derrubavam a presunção de controle do ser que as escreve.

Lispector investiu nos fluxos de consciência, que são momentos nos quais os personagens adquirem voz e falam do que pensam de forma radical e feroz, mas a cada momento que falam necessitam falar um pouco mais. Correm em direção ao que precisam, inexplicavelmente se afastando cada vez mais do que necessitam.

Para aqueles que ainda não conhecem Clarice Lispector, sugiro começar com “A hora da estrela”, um livro de um realismo mais cru. Depois mergulhe nos contos de “Laços de família”, para chegar ao epifânico “A paixão segundo GH”. De toda sorte, a ordem dos fatores não altera o produto, você sabe. O importante é que você leia esses, se não puder ler todos; ou leia pelo menos um, se não puder ler esses.

A autora morreu em 9 de dezembro de 1977, vítima de câncer. Eu coloquei os olhos em “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres” no dia 11 de outubro de 1996. Renato Russo tinha morrido e fazia um sol tímido. Eu estava procurando uma maneira admirável de ser sozinho. E espero que você a encontre também. Bem, não se deve dar a mínima àquilo que os escritores dizem. Exceto, é claro, quando você os ama profundamente.

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