Paulo Dalla Nora Macedo

De Lisboa, a conexão entre Brasil e Europa na política, na economia e na cultura

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Análise

A Inglaterra ainda não se curou da ferida do Brexit

Saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, que muitos consideram o maior desastre estratégico do pós-guerra, segue como trauma britânico. E agora?

24/06/2026 às 14:38 · Atualizado há 3 meses
Keir Starmer anuncia renúncia na véspera dos 10 anos do Brexit
Keir Starmer anuncia renúncia na véspera dos 10 anos do Brexit (RS/Fotos Públicas)

Na segunda-feira, dia 22 de junho, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, anunciou sua renúncia. Com isso, ele se tornou o sexto líder do país a deixar o cargo em apenas 10 anos. O dia seguinte, 23 de junho, marcou o décimo aniversário do Brexit, um evento que muitos consideram o maior desastre estratégico do pós-guerra para o Reino Unido.

Esse episódio se tornou o ponto de partida para uma onda de populismo digital, que, impulsionada por mentiras amplificadas pelos algoritmos das redes sociais, levou ao poder figuras antes relegadas ao folhetim das bizarrices, como Donald Trump e Jair Bolsonaro. E, junto com eles, personagens exóticos que queriam usar a influência ao seu favor.

Leia mais: O desconcerto da Europa entre Trump e Putin, extrema-direita e patriotismo

Em termos econômicos, os efeitos do Brexit são brutais. Estudos realizados por instituições econômicas respeitáveis estimam que a economia do Reino Unido está atualmente entre 4% e 6% menor do que seria se o país ainda fizesse parte da União Europeia. Essa redução equivale a mais de R$ 1 trilhão a menos em produção a cada ano. 

Brexit foi construído sobre falsidades

Tive a oportunidade de passar o ano de 2016 em Londres e acompanhei de perto a dinâmica da campanha do Brexit. O pilar central da campanha foi construído sobre informações completamente falsas, alegando que o Reino Unido enviava centenas de milhões de libras por dia para a União Europeia, sem receber nada em troca.

Essas afirmações eram totalmente fabricadas. Para tornar essa narrativa eficaz nas urnas, a Cambridge Analytica, uma empresa especializada em estratégias digitais, desenvolveu um mecanismo para mapear os perfis das pessoas por meio de suas contas no Facebook. Assim, os tais “milhões de libras” eram apresentados a cada eleitor como uma “falta” em relação aos temas que mais lhes importavam: “As escolas estão ruins porque enviamos centenas de milhões todos dias para a Europa” aparecia para as mães.

Foi assim que surgiu o “laboratório” que alimentou a narrativa sobre a invasão de imigrantes, influenciando fortemente a vitória de Trump em 2016 nos Estados Unidos e a famosa “mamadeira de piroca”, que teve impacto na eleição de Bolsonaro no Brasil, em 2018. Claro que essa estratégia se aproveita de medos reais, utilizando fragmentos da realidade para uma manipulação em massa.

Dez anos depois, esse maquinário ainda está em operação. Esta semana, por exemplo, entrei em um táxi em São Paulo, onde o motorista comentou que estava considerando se mudar para o Paraguai, afirmando que “lá está melhor do que no Brasil e todas as empresas estão indo para lá”.

A pergunta que se impõe

Voltando ao Reino Unido, a pergunta que se coloca agora é: e agora? Tudo indica que o novo primeiro-ministro será o prefeito de Manchester, um esquerdista com um perfil semelhante ao do prefeito de Nova York. No entanto, o problema persiste.

Sozinha, a Inglaterra enfrenta uma situação extremamente complicada. Talvez a solução definitiva passe pelo reconhecimento do erro do Brexit em 2016 e pela negociação de um retorno à União Europeia. Contudo, será necessário aguardar mais alguns anos até que as condições políticas permitam essa manobra.

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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