Paulo Abrão
Tentando explicar o Brasil para o mundo: relações internacionais, política, direitos humanos, democracia e meio ambiente
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Artigo

A esquerda precisa voltar a falar sobre corrupção, proteger o Supremo e não perder as ruas

A reaparição do pato amarelo deveria ser o suficiente para despertar a memória política da esquerda brasileira

05/09/2026 às 16:09 · Atualizado há 1 mês
Esquerda brasileira precisa abrir os olhos
O pato amarelo inflável em Brasília, em 2015 (José Cruz/Agência Brasil)

O pato amarelo está novamente instalado na garagem da Fiesp. Ainda não sabemos se o enorme inflável que se tornou um dos símbolos das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff voltará às ruas. A informação revelada por Beatriz Bulla no Amado Mundo, porém, é uma imagem difícil de ignorar. Talvez o pato nem precise sair da garagem para cumprir sua função neste momento: sua reaparição deveria ser suficiente para despertar a memória política da esquerda brasileira.

O Brasil atravessa uma crise institucional grave justamente quando entra na fase decisiva de uma eleição presidencial extremamente disputada. As revelações do caso Banco Master, as relações de Daniel Vorcaro com personagens importantes da vida pública, as suspeitas que alcançaram integrantes das instituições brasileiras, os questionamentos sobre a condução das investigações e o conflito que se instalou dentro do próprio Supremo Tribunal Federal produziram uma crise que já não pode ser tratada como um problema envolvendo apenas um ministro ou uma instituição. Ao mesmo tempo, a extrema direita percebeu rapidamente a oportunidade e procura reunir corrupção, Supremo e governo Lula em uma mesma narrativa eleitoral, levando-a agora para as eleições. Se ela ganhar, fica como está. Se ela perder, ativará mobilizações de rua na melhor oportunidade, seja como contestação do resultado eleitoral ainda em 2026, seja como inflamação social para desgastar o governo cotidianamente a partir de 2027.

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A esquerda precisa decidir como atravessará essa crise. Pode assumir uma posição defensiva, preocupada sobretudo com os efeitos eleitorais das revelações, com as intenções de quem as divulga e com a proteção das instituições atacadas pela extrema direita. Ou pode recuperar uma tradição democrática que também lhe pertence, defender simultaneamente a investigação rigorosa dos fatos, as garantias do Estado de Direito e as instituições democráticas, e voltar a disputar uma bandeira que jamais deveria ter abandonado: o combate à corrupção.

Escrevo esta reflexão como alguém do campo democrático e progressista e também a partir de uma experiência pessoal que talvez ajude a explicar por que considero falsa a oposição entre essas agendas. Dediquei parte importante da minha vida pública à defesa dos direitos humanos, à memória da ditadura e à construção das instituições democráticas. Como presidente da Comissão de Anistia, participei do esforço do Estado brasileiro para reconhecer as graves violações praticadas durante o regime militar, reparar suas vítimas e construir uma memória capaz de impedir que o autoritarismo voltasse a ser naturalizado. Mais tarde, como Secretário Nacional de Justiça do governo Dilma Rousseff, presidi a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro, a ENCCLA, supervisionei o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, o DRCI, e implementei a expansão dos Laboratórios de Tecnologia contra a Lavagem de Dinheiro e Corrupção pelo país.

Nunca enxerguei qualquer contradição entre essas duas experiências. Ao contrário, ambas pertencem à mesma concepção de democracia. Uma das grandes lições de uma ditadura é que todo poder precisa encontrar limites, controles e mecanismos de responsabilização. Isso vale para presidentes, militares, policiais, empresários, parlamentares, procuradores e também para juízes. Defender direitos humanos e combater a corrupção são, nesse sentido, dimensões diferentes de uma mesma luta contra o abuso do poder.

Sem ignorar as precauções e traumas nesse campo, é justamente por isso que me preocupa ver a esquerda brasileira tão desconfortável diante do tema da corrupção.

Uma história (da esquerda) que precisamos recuperar

Durante muito tempo, ética pública, fiscalização do poder e combate à corrupção também foram bandeiras importantes da esquerda brasileira. A luta pela redemocratização não se limitava à realização de eleições. Ela carregava uma concepção de República na qual o Estado deveria deixar de servir a grupos privilegiados, o poder deveria estar submetido ao escrutínio público e os recursos da sociedade deveriam ser utilizados em benefício da coletividade. A esquerda esteve nas denúncias de corrupção dos anos 1980 e 1990, nas grandes investigações parlamentares, na CPI do Orçamento, nas mobilizações pela ética na política e no movimento que levou ao impeachment de Fernando Collor.

Isso não aconteceu por acaso. A corrupção não é uma agenda naturalmente de direita que, a propósito, implantou uma ditadura no Brasil com inúmeros escândalos de corrupção. Quando compreendida para além de sua dimensão criminal, ela significa apropriação privada do Estado, transformação de poder econômico em poder político, captura das instituições por interesses particulares e utilização desigual dos recursos e das relações públicas. Poucas questões deveriam ser mais compatíveis com uma concepção progressista de democracia.

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Essa história continuou quando a centro-esquerda chegou ao governo federal. É importante recuperá-la porque uma das consequências políticas mais profundas da Lava Jato foi produzir uma espécie de amnésia coletiva segundo a qual o Brasil teria descoberto o combate à corrupção com Sergio Moro e os procuradores de Curitiba. Não foi assim.

No governo Sarney se desfizeram estruturas persecutórias como o ex-SNI. A Nova Constituição trouxe uma arquitetura institucional que depois permitiria o combate mais efetivo à corrupção, como a autonomia e poderes investigativos do Ministério Público, o papel do TCU, o desenho de controles interno/externo, o princípio da moralidade administrativa. No governo Collor se aprovou a Lei de Improbidade Admnistrativa. Itamar pode ser apresentado como um governo de reconstrução da legitimidade institucional depois de uma ruptura causada pela corrupção, com uma postura pessoal de austeridade que também fazia parte de sua imagem pública. Com FHC começa uma arquitetura anticorrupção moderna no Executivo, com o COAF e Lei de Lavagem, a Lei de Responsabilidades Fiscal, a Corregedoria-Geral da União.

A partir de 2003, os governos Lula e Dilma construíram, ampliaram ou consolidaram parte crucial da atual infraestrutura institucional brasileira de prevenção e combate à corrupção e à lavagem de dinheiro. A Controladoria-Geral da União foi estruturada como órgão central de controle interno, auditoria, correição, transparência e prevenção da corrupção. O Portal da Transparência ampliou radicalmente o acesso público às informações sobre os recursos federais. A Polícia Federal foi fortalecida. Se implantou a lista tríplice para a PGR. A ENCCLA nasceu para reunir dezenas de órgãos públicos em uma estratégia permanente de cooperação contra corrupção e lavagem de dinheiro. O DRCI fortaleceu a recuperação de ativos e a cooperação jurídica internacional. Os governos Lula I e II foram um período de grande expansão da capacidade institucional de investigar, prevenir e expor corrupção.

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Com Dilma, tivermos provavelmente o período de maior densidade legislativa anticorrupção desde 1988. O maior período de capacitação de servidores públicos em todas as esferas federativas para se combater a corrupção. Foram inúmeros os acordos de cooperação internacional negociados e assinados para a recuperação de ativos desviados para outros países. A legislação de lavagem de dinheiro foi modernizada e as capacidades de investigação patrimonial e financeira foram progressivamente ampliadas. Vieram ainda a Lei Complementar da Transparência, a Lei de Acesso à Informação, a Lei de Conflito de Interesses e a Lei Anticorrupção, que estabeleceu a responsabilização objetiva das empresas por atos praticados contra a administração pública. A legislação sobre organizações criminosas também foi modernizada. Algumas dessas transformações nasceram do Executivo, outras do Congresso e outras da sociedade civil, como a Lei da Ficha Limpa.

Não se trata de reivindicar exclusividade partidária sobre nenhuma delas, mas de reconhecer um fato histórico: durante os governos Lula e Dilma, o Estado brasileiro desenvolveu uma arquitetura de transparência, controle, inteligência financeira, responsabilização e recuperação de ativos únicas que até hoje são determinantes para inúmeras investigações.

Participei diretamente de uma parte desse processo, ao lados de tantos colegas valorosos e servidores públicos comprometidos com a nação . Quando estive à frente da Secretaria Nacional de Justiça entre 2011 e 2014 trabalhamos para expandir a Rede Nacional de Laboratórios de Tecnologia contra a Lavagem de Dinheiro, investimos quase R$40 milhões de reais nisso. A política era muito menos espetacular do que uma operação policial televisionada, mas talvez por isso expresse melhor o tipo de combate à corrupção em que acredito: construir capacidades permanentes do Estado, dotar instituições de tecnologia e pessoal qualificado para analisar grandes volumes de dados bancários, fiscais e patrimoniais, identificar redes financeiras complexas, localizar ativos e permitir cooperação entre diferentes órgãos. A rede alcançou todo o território nacional.

A ideia era simples: para enfrentar corrupção sofisticada e organizações criminosas, é preciso seguir o dinheiro, recuperar ativos, compartilhar informações, cooperar internacionalmente e construir instituições capazes de continuar funcionando quando os personagens do momento já tiverem deixado seus cargos.

Não é preciso transformar investigadores e juízes em heróis da República. Não podemos repetir esse erro. Por isso, a esquerda não precisa pedir licença à Lava Jato ou quem quer que seja para falar sobre corrupção. Existe um paradoxo histórico que a esquerda deveria reivindicar, e não esconder: a Lava Jato só conseguiu atingir a dimensão que atingiu porque encontrou um Estado democrático dotado de instrumentos de investigação e responsabilização que haviam sido significativamente fortalecidos durante os próprios governos petistas.

Como uma bandeira mudou de mãos

Se essa história existe, precisamos compreender por que ela praticamente desapareceu da memória política da esquerda. E para isso é impossível não voltar a Junho de 2013.

As manifestações daquele ano começaram com uma pauta progressista relacionada ao transporte público, ao direito à cidade e à qualidade dos serviços públicos e rapidamente se transformaram em algo muito maior, heterogêneo e contraditório. Havia movimentos de esquerda, jovens sem experiência partidária, reivindicações por saúde e educação, críticas aos gastos públicos, insatisfação com o sistema político, antipartidarismo e também grupos conservadores. Com o crescimento das manifestações, a corrupção passou a ocupar lugar cada vez mais importante nas ruas.

Seria uma simplificação histórica afirmar que Junho de 2013 foi um movimento de direita ou que conduziu inevitavelmente ao bolsonarismo. Mas seria igualmente equivocado não reconhecer que, ao longo daquele processo e nos anos seguintes, a esquerda perdeu progressivamente a capacidade de oferecer uma interpretação política para algumas das indignações que estavam presentes nas ruas. Não perdemos as ruas simplesmente porque milhões de brasileiros se tornaram subitamente conservadores. Perdemos também porque deixamos de disputar sentimentos legítimos existentes na sociedade. A indignação com a corrupção foi um deles.

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Esse talvez seja um dos aprendizados políticos mais importantes daquele período. Quando uma força política abandona uma indignação social porque seus adversários passaram a explorá-la, a indignação não desaparece. Ela apenas muda de proprietário político.

Nos anos seguintes, setores da direita demonstraram enorme capacidade para ocupar esse espaço. Surgiram novas organizações, grandes manifestações, uma linguagem antipolítica cada vez mais agressiva e símbolos capazes de condensar insatisfações muito diferentes. O enorme pato amarelo colocado pela Fiesp na Avenida Paulista durante o ciclo de mobilizações contra a presidenta Dilma tornou-se uma das representações visuais daquela transformação. Não foi um símbolo de Junho de 2013, mas do processo político que veio depois, quando parte das indignações que haviam emergido nas ruas, entre elas a corrupção, foi progressivamente reorganizada em uma poderosa mobilização contra a esquerda. A Lava Jato encontrou esse terreno preparado.

E o pato está novamente na garagem da Fiesp. Não sabemos se sairá às ruas no 7 de setembro ou depois das eleições. A nova diretoria da FIESP declarou que não. Mas se não vai ser agora, o fato é que ele está ali de novo apontado pra rua. Talvez a pergunta mais importante para a esquerda seja outra: por que um símbolo tão carregado daquela memória política reaparece justamente agora?

O trauma da Lava Jato não pode paralisar a esquerda

Nenhuma reconstrução de uma agenda progressista contra a corrupção será possível sem enfrentar honestamente a experiência da Lava Jato. Houve investigações importantes e esquemas reais de corrupção foram revelados, mas houve também graves violações de garantias, relações impróprias entre acusação e magistratura, vazamentos seletivos, espetacularização do processo penal, instrumentalização política do sistema de Justiça e decisões posteriormente anuladas. A crítica a esses abusos foi necessária e continua sendo parte inseparável da defesa do Estado de Direito.

O problema surge quando rejeitar devidamente o lavajatismo passa a significar rejeitar a própria agenda anticorrupção. São coisas completamente diferentes.

Se toda investigação que alcança alguém identificado com o campo progressista é imediatamente interpretada como perseguição política ou tentativa de reproduzir a Lava Jato, corremos o risco de produzir o trauma da Lava Jato ao contrário. Na Lava Jato, garantias fundamentais foram relativizadas em nome do combate à corrupção. No erro simétrico, o combate à corrupção passa a ser relativizado em nome da defesa das garantias, das instituições ou do próprio campo político. Nos dois casos, princípios que deveriam ser universais acabam dependendo de quem está sendo investigado.

A esquerda não precisa escolher entre esses dois modelos. Não precisamos do messianismo judicial que transforma investigadores e juízes em salvadores da República, mas tampouco podemos aceitar um corporativismo político ou institucional que transforme garantias em instrumentos de impunidade. Uma democracia madura precisa ser capaz de investigar rigorosamente e respeitar direitos ao mesmo tempo. Essa deveria ser uma das principais lições da Lava Jato.

O caso Master é o nosso teste agora

É diante dessa história que devemos olhar para a crise atual. As revelações envolvendo Daniel Vorcaro e sua extensa rede de relações com personagens importantes da vida pública brasileira são muito graves. Elas alcançam diferentes campos políticos e instituições e levantam questões sobre relações entre poder econômico e autoridades públicas. Ao mesmo tempo, existem questionamentos igualmente sérios sobre a condução das investigações, sobre eventual seletividade dos alvos, vazamentos e procedimentos adotados por autoridades responsáveis pelo caso.

A resposta democrática não pode escolher previamente qual dessas dimensões merece ser investigada. Todas merecem.

Por isso, a primeira pergunta da esquerda diante de cada nova revelação não deveria ser quem vazou, quem será beneficiado eleitoralmente ou se estamos diante de uma nova Lava Jato. Essas perguntas são legítimas e cruciais, e algumas delas precisam necessariamente fazer parte das investigações. Mas há uma pergunta anterior e mais simples: o que aconteceu?

Se houve relações impróprias envolvendo Alexandre de Moraes elas precisam ser investigadas com pleno respeito ao devido processo legal. Se existem questões envolvendo Paulo Gonet, precisam ser esclarecidas. Se André Mendonça manteve relações capazes de comprometer sua imparcialidade, praticou irregularidades ou conduziu seletivamente diferentes ramificações do caso, isso também precisa ser apurado. Se existem fatos envolvendo Dias Toffoli ou qualquer outro ministro, a mesma regra deve valer. Se Flávio Bolsonaro recebeu benefícios ou financiamento relacionados a Vorcaro, a investigação deve avançar. E, se integrantes do PT, pessoas próximas ao presidente Lula ou qualquer membro do governo estiverem envolvidos, não pode existir uma regra diferente.

A credibilidade de uma posição democrática sobre corrupção começa exatamente aí: não há ninguém para proteger.

É preciso proteger o Supremo

Esse princípio se torna particularmente difícil quando a crise alcança uma instituição que desempenhou papel decisivo na defesa da democracia brasileira nos últimos anos. O Supremo Tribunal Federal enfrentou ameaças, campanhas de intimidação e ataques sistemáticos. Ministros e suas famílias foram perseguidos, o edifício da Corte foi invadido e depredado em 8 de janeiro e setores da extrema direita jamais esconderam o desejo de constranger, submeter ou modificar a composição do Tribunal.

Por tudo isso, o Supremo precisa ser protegido. Mas proteger o Supremo não significa proteger Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli ou qualquer outro ministro individualmente. Ao contrário, quanto mais importante é uma instituição para a democracia, maior deve ser a exigência de integridade daqueles que a ocupam. Uma instituição não se fortalece escondendo erros de seus integrantes. Fortalece-se demonstrando possuir mecanismos capazes de investigá-los, corrigi-los e, quando necessário, responsabilizá-los. Independência judicial não significa irresponsabilidade judicial.

É preciso, portanto, rejeitar simultaneamente duas operações políticas. Não podemos permitir que uma investigação legítima sobre a conduta de um ministro seja transformada pela extrema direita em argumento para destruir ou submeter o Supremo. Mas também não podemos permitir que a necessidade de proteger o Supremo contra a extrema direita seja utilizada para impedir uma investigação legítima sobre a conduta de um ministro. O objeto de nossa proteção deve ser a instituição.

É perfeitamente possível defender investigações rigorosas e exigir juiz imparcial, defender transparência e combater vazamentos seletivos, responsabilizar autoridades e rejeitar julgamentos antecipados, combater corrupção sem destruir reputações antes da prova e proteger o Supremo sem proteger ministros. Na realidade, neste momento, uma coisa depende da outra.

A esquerda não pode responder a uma crise de confiança simplesmente pedindo que a sociedade confie nas instituições. Precisa ajudar a produzir razões para que a sociedade confie nelas.

Corrupção também é desigualdade

Há ainda uma dimensão do caso Master que deveria interessar particularmente à esquerda e que o discurso moralista tradicional sobre corrupção quase nunca alcança: a desigualdade de acesso ao Estado.

Não há crime em um empresário conhecer um ministro, um procurador, um parlamentar ou um presidente. O problema começa quando riqueza, relações pessoais e redes profissionais permitem a determinados cidadãos formas de acesso aos centros de decisão que são inimagináveis para a imensa maioria da população.

Quem consegue telefonar diretamente para quem decide? Quem consegue chegar a determinados gabinetes? Quem consegue contratar escritórios, consultores ou intermediários conectados aos centros de poder? Quem consegue obter informação antes dos demais? Quem consegue ser ouvido antes que uma decisão seja tomada? Em que momento dinheiro produz acesso, acesso produz influência e influência pode produzir vantagens? Conrado Hubner tem tratado destes temas com uma enorme propriedade há muito tempo. E parece que não está sendo lido pela esquerda.

Essas perguntas dizem respeito à corrupção em sentido amplo, mas também à desigualdade e à qualidade da democracia. Uma sociedade em que os muito ricos possuem portas de entrada para o Estado que o cidadão comum não possui continua profundamente desigual mesmo quando não encontramos uma mala de dinheiro ou uma transferência bancária ilícita.

Talvez esteja justamente aí uma das possibilidades de reconstrução de uma agenda progressista de integridade. Ela passa pela regulamentação efetiva do lobby, transparência das relações entre agentes econômicos e autoridades, regras rigorosas sobre conflitos de interesse e portas giratórias entre Estado e empresas, divulgação de agendas e encontros, rastreabilidade do dinheiro público, proteção de denunciantes, fortalecimento das instituições de controle, investimento permanente em inteligência financeira e tecnologia, cooperação internacional, recuperação de ativos, dados abertos e mecanismos de integridade aplicáveis também aos tribunais superiores.

Nenhuma dessas propostas exige um novo juiz herói. Elas exigem instituições.

O risco de perder as ruas novamente

Tudo isso seria importante em qualquer momento, mas tornou-se urgente porque estamos no meio de uma eleição presidencial apertada e a extrema direita percebeu imediatamente a oportunidade criada pela crise. A estratégia é relativamente simples: transformar um caso que atravessa diferentes instituições e diferentes campos políticos em uma narrativa segundo a qual existe, de um lado, um sistema corrupto identificado com Lula, a esquerda e o Supremo e, do outro, aqueles que se apresentam como seus adversários.

A contradição factual dessa narrativa é evidente, inclusive porque o caso Master alcança personagens e interesses situados em diferentes partes do espectro político, mormente na direita. Mas seria um erro imaginar que a incoerência impedirá sua eficácia. A extrema direita já demonstrou que pode defender seus próprios integrantes quando são investigados e, simultaneamente, apresentar-se como proprietária da bandeira anticorrupção. Coerência factual não é condição necessária para conquistar a propriedade política de uma agenda.

Agora essa narrativa pretende voltar às ruas durante as eleições ou no formato de manifestações depois das eleições caso o atual governo seja reeleito. Desgastar desde o princípio é parte da agenda de tentativa de desestabilização a médio prazo.

É aqui que a memória de 2013 deveria funcionar como advertência. A esquerda não pode repetir o erro de imaginar que denunciar o oportunismo dos adversários será suficiente para neutralizar uma indignação existente na sociedade. Tampouco pode responder às revelações apenas discutindo a intenção de quem as produziu ou seus possíveis efeitos eleitorais. Se brasileiros estão indignados com aquilo que veem no caso Master e no Supremo, a esquerda precisa ser capaz de compartilhar a exigência de esclarecimento e responsabilização, acrescentando aquilo que a experiência democrática nos ensinou: investigação, sim, mas sem linchamentos; responsabilização, sim, mas sem condenações antecipadas; transparência, sim, mas sem vazamentos seletivos; combate à corrupção, sim, mas sem juízes parciais e sem instrumentalização eleitoral da Justiça. A diferença entre uma agenda progressista de integridade e o lavajatismo não pode estar na disposição de combater a corrupção. Precisa estar na maneira democrática de fazê-lo.

É por isso que a esquerda precisa estar nas ruas. Não necessariamente nas mesmas manifestações ou disputando fisicamente os mesmos espaços, mas ocupando politicamente o debate público e recusando-se a entregar novamente uma indignação legítima da sociedade à extrema direita. Não se trata de ir às ruas para defender Alexandre de Moraes, Paulo Gonet ou qualquer outra autoridade. Nem de ir às ruas simplesmente para defender Lula. Trata-se de defender a democracia, exigir que todos os fatos sejam investigados, sustentar o devido processo legal e afirmar que ninguém está acima da lei. Não é hora de perder as ruas novamente.

Uma posição para atravessar a crise

A eleição de outubro não decidirá apenas quem ocupará a Presidência da República. Ela ocorre depois de uma tentativa de ruptura democrática, em meio a uma grave crise de confiança nas instituições e diante da possibilidade concreta de retorno ao poder de uma extrema direita que nunca resolveu sua relação problemática com a democracia brasileira. A crise do Master e do Supremo adicionou uma variável que pode alterar uma eleição até aqui marcada pela polarização e por níveis elevados de decisão do eleitorado.

É justamente por isso que considero insuficiente a esquerda enfrentar este momento preocupada apenas em reduzir os danos eleitorais ao governo Lula. Uma posição construída para proteger um governo dificilmente atravessará uma crise institucional. Precisamos de uma posição universal, capaz de continuar válida independentemente do nome que aparecer na próxima mensagem, relatório policial ou investigação.

Se amanhã surgirem provas contra um bolsonarista, a regra deve ser uma. Se surgirem contra alguém do PT, a mesma. Se atingirem um ministro identificado com posições progressistas, a mesma. Se alcançarem um ministro conservador, também a mesma. A força política de uma agenda democrática contra a corrupção nasce precisamente da capacidade de aplicá-la aos próprios aliados.

A melhor maneira de defender um governo democrático não é protegê-lo das investigações, mas demonstrar que, sob a democracia, ninguém possui imunidade política diante dos fatos. Da mesma forma, a melhor maneira de proteger o Supremo não é afirmar que seus ministros são insuscetíveis a escrutínio, mas demonstrar que a instituição é maior do que qualquer um deles.

Talvez seja possível resumir essa posição em quatro compromissos: investigação integral, máxima transparência, devido processo legal e defesa das instituições. Doa a quem doer. Foi o que Lula disse, com outras palavras, em seu recente pronunciamento sobre o caso.

Recuperar uma parte da esquerda

Esta é, no fundo, a reflexão que gostaria de compartilhar com o campo político ao qual pertenço. A esquerda brasileira possui uma história de defesa da ética pública que antecede em décadas a Lava Jato. Participou da luta pela democratização, denunciou abusos de poder, esteve nas mobilizações contra Collor e ajudou a construir instituições de controle. Quando governou, fortaleceu a transparência, a inteligência financeira, a cooperação internacional, a recuperação de ativos e a legislação anticorrupção.

Também aprendemos, duramente, com a experiência da Lava Jato. Sabemos hoje que o combate à corrupção pode ser instrumentalizado contra o Estado de Direito, interferir em eleições e o poder punitivo do Estado pode se transformar em instrumento de autoritarismo. Mas nenhuma dessas lições torna a corrupção menos grave. Elas deveriam, ao contrário, permitir que a esquerda construa uma posição mais madura do que aquela que possuía antes. Podemos defender garantias e investigações, direitos e responsabilização, transparência e devido processo legal, instituições fortes e autoridades submetidas a controles. Podemos defender o Supremo sem defender ministros. Podemos combater a corrupção sem entregar novamente o sistema de Justiça a salvadores da pátria. E fazer tudo isso mantendo serenidade, responsabilidade e prudência.

Essa posição decorre da mesma tradição democrática que me levou, em momentos diferentes da minha vida pública, a trabalhar pela memória das vítimas da ditadura na Comissão de Anistia e pelo fortalecimento das capacidades do Estado contra a corrupção e a lavagem de dinheiro na Secretaria Nacional de Justiça. Nunca enxerguei contradição entre essas tarefas porque combater o autoritarismo significa, em última instância, combater o abuso do poder, venha ele de onde vier. E aprendi que não há direitos humanos sem democracia e vice-versa.

Talvez esse seja também o aprendizado que precisamos recuperar agora. Quando uma democracia entra em crise, o primeiro impulso de quem a defende costuma ser cerrar fileiras em torno das instituições ameaçadas. Mas instituições democráticas não se fortalecem com silêncio ou complacência. Fortalecem-se demonstrando capacidade de reconhecer seus problemas, investigar seus integrantes e corrigi-los sem destruir as garantias que as distinguem do autoritarismo. A democracia não será protegida escondendo suas fragilidades. Será protegida dando visibilidade para demonstrar capacidade de enfrentá-las. (Re)conhecer os erros para não repeti-los. Por isso, a esquerda não precisa recuperar a Lava Jato. Precisa recuperar da Lava Jato aquilo que nunca pertenceu à Lava Jato: a luta contra a corrupção.

E não se trata de voltar a 2013. Trata-se de não repetir 2013. Não podemos entregar novamente uma indignação legítima da sociedade àqueles que pretendem utilizá-la contra a própria democracia. Não podemos permitir que a nossa defesa do Supremo seja confundida com corporativismo, que a nossa defesa das garantias seja confundida com impunidade ou que a nossa defesa de um governo democrático nos impeça de sustentar princípios universais.

O velho pato amarelo está na garagem da Fiesp. Não sabemos se será inflado novamente para ocupar as ruas. Mas, depois de tudo o que aconteceu no Brasil desde 2013, sua presença ali deveria ser suficiente para nos lembrar de uma coisa: o vazio político nunca permanece vazio. Alguém o ocupa. O golpismo segue vivo, com métodos mais sofisticados. O espaço que se abriu entre o lavajatismo e a negação da corrupção precisa ser ocupado pela democracia. E a esquerda não pode perder as ruas novamente.

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