Miguel Barbieri

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Por que ‘A bola preta’ desponta como um dos favoritos ao Oscar 2027

Exibido na abertura do Festival do Rio, o filme espanhol contou com a presença da produtora Esther García

02/10/2026 às 12:12 · Atualizado há 2 semanas
O soldado fascista e seu inimigo em cena de 'A bola preta': inesperada atração (divulgação)
O soldado fascista e seu inimigo em cena de ‘A bola preta’: inesperada atração (Divulgação)

Estive na noite de ontem, 1º/10, na abertura do Festival do Rio, no Cine Odeon. Não houve discursos políticos, apenas uma menção à proteção de Nossa Senhora Aparecida, feita por Walkiria Barbosa, uma das diretoras do evento. A boa notícia para os cariocas veio de Lucas Padilha, atual secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro: após o Festival, o Odeon voltará a funcionar comercialmente em um projeto da prefeitura de revitalização da Cinelândia — o espaço funcionava apenas para eventos desde 2015.

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O que houve de mais político foi o filme “A bola preta”, escolhido para abrir um dos maiores festivais de cinema da América Latina. Ele foi produzido pelos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar e por Esther García — que foi muito aplaudida no Odeon ao apresentar o longa-metragem, representante da Espanha no Oscar 2027.

Como disse Marcio Fraccaroli, da Paris Filmes (distribuidora do longa no Brasil), os diretores Javier Calvo e Javier Ambrossi, conhecidos como Los Javis, não puderam marcar presença porque já estão nos Estados Unidos para dar início à campanha na temporada de premiações. A intenção é que, além de concorrer a Melhor Filme Internacional, “A bola preta” conquiste indicações a Melhor Filme, Direção e Roteiro, entre outras categorias. Qualidades não faltam.

O filme saiu do Festival de Cannes com o prêmio de Melhor Direção, um fabuloso trabalho de Los Javis, que antes dirigiram duas ótimas séries: “A Messias” e “Veneno”. O roteiro também é espetacular ao embaralhar três épocas e personagens distintos numa trama de duas horas e meia. Confesso que, por mais que sejam instigantes, as três histórias não se conectam facilmente. Depois de mais de uma hora é que elas começam a fazer sentido e, daí em diante, o filme fica cada vez melhor. Não vou dar spoilers porque o grande prazer de “A bola preta” é, justamente, perceber como essa engrenagem se amarra.

‘A bola preta’ tem três linhas temporais

Como disse, são três linhas temporais. Em 1932, um rapaz que reprime sua homossexualidade tenta ser aceito num cassino da elite de Granada. Já durante a Guerra Civil Espanhola, no fim da mesma década, um soldado alinhado aos fascistas é encarregado de vigiar um inimigo ferido — e nasce daí uma inesperada atração entre eles.

A contemporaneidade chega em 2017, quando um historiador tenta descobrir um mistério envolvendo o poeta Federico García Lorca. Para quem não sabe, Lorca foi fuzilado aos 38 anos, em 1936, logo nas primeiras semanas da Guerra Civil. O motivo? Era homossexual, declaradamente de esquerda e defensor da democracia, algo que os militares golpistas queriam derrubar. E não é que há uma forte sintonia entre o filme e o Brasil de hoje?

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O único nome espanhol muito famoso do elenco é o de Penélope Cruz, que faz uma participação especial como uma cantora responsável por entreter os soldados fascistas. Glenn Close também dá o ar da graça como uma especialista na obra de Lorca. Mas é o elenco masculino, pouco conhecido, que dá o tom, por vezes levemente homoerótico, da produção. São vários atores empenhados em contar como a homofobia germina em regimes tirânicos, enquanto Los Javis demonstram seu talento em imagens de poesia infinda.

Ainda é muito cedo para apontar o vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. O romeno “Fjord”, o dinamarquês “Mulher Desconhecida”, o sul-coreano “Amor Possível” e o francês “Minotauro” também são fortes candidatos. “A bola preta”, porém, já conquistou meu coração. O filme tem mais duas sessões (já com ingressos esgotados) no Festival do Rio e chega aos cinemas do Brasil em 21 de janeiro.

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