Com 258 golpes por hora, estelionato é o maior crime patrimonial do país e vira negócio ‘industrial’ para facções
20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que impunidade quase absoluta transformou prática em esquema organizado

Em meio à queda nos índices de violência letal, uma modalidade criminosa disparou e tomou conta do país. Em 2025, o Brasil registrou a marca recorde de 2.261.055 ocorrências de estelionato, o que equivale a uma impressionante média de 258 golpes por hora. Os dados, compilados pelo 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), confirmam que as fraudes — sejam elas tradicionais ou digitais — se consolidaram de vez como o principal crime patrimonial do país, gerando tanto impacto que, segundo pesquisas, hoje 83,2% da população afirma ter medo de ser vítima de fraudes pela internet ou pelo celular.
Leia também: Rankings sexuais: quando a misoginia vira brincadeira, jogo e violência
Estelionato vira atividade de facções criminosas
De acordo com o estudo, a explosão dos números escancara uma mudança na economia do crime, que deixou de ser praticado apenas por estelionatários isolados para assumir uma roupagem industrial e altamente lucrativa.
Investigações policiais confirmam que grandes facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), criaram “escritórios do crime” dedicados exclusivamente a fraudes digitais, operando essa frente como um negócio de baixo risco e enorme rentabilidade.
O anuário destaca casos descobertos recentemente, como o desmantelamento de uma central na Avenida Faria Lima (SP) que operava com mais de 400 computadores e 100 funcionários, e uma quadrilha no Rio Grande do Sul que possuía quadros na parede com metas de arrecadação e bônus por produtividade para os golpistas.
Impunidade é atrativo
O atrativo financeiro para o crime organizado é garantido por um cenário de impunidade quase absoluta. O estudo evidencia a existência de um “funil” no sistema da Justiça criminal: dos mais de 2,26 milhões de boletins de ocorrência registrados em 2025, apenas 63.771 se converteram em processos penais e somente 4.819 terminaram em prisão. Na prática, mais de 97% dos estelionatos denunciados no Brasil nem sequer chegam a ser julgados pelo Poder Judiciário.
Segundo o FBSP, essa impunidade sistêmica é agravada por mudanças na legislação feitas em 2019, que transformaram o estelionato em um crime de ação penal condicionada (exigindo que a vítima faça uma representação formal em até seis meses para que o Ministério Público atue) e criaram a possibilidade de Acordos de Não Persecução Penal (ANPP), em que o golpista pode se livrar do processo ao restituir o valor.