Reportagem

Anuário de Segurança Pública: 10 cidades mais letais do Brasil ficam no Nordeste

Corredores logísticos em rodovias e proximidade de portos no Nordeste alimentam disputa entre facções por controle territorial e logístico do tráfico de drogas

por Letícia Corrêa
Publicado em 23/07/2026 às 08:00
facções nordeste
O Comando Vermelho é uma das maiores facções criminosas do Rio de Janeiro e do Brasil. Créditos: Pablo Porciuncula/AFP

O Nordeste brasileiro se consolidou como o epicentro da violência letal no país. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revelam que, em 2025, todas as 10 cidades com mais de 100 mil habitantes que registraram as maiores taxas de mortes violentas intencionais (MVI) — homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios (roubos seguidos de morte), lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais — estão localizadas na região. A disputa protagonizada por facções criminosas pelo controle territorial e logístico do tráfico de drogas é um fator em comum entre todas elas. 

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A Bahia domina o ranking, com cinco desses municípios, seguida pelo Ceará, com três, além de Pernambuco e Paraíba, com um representante cada um. O município cearense de Maranguape ocupa o topo da lista, com uma taxa de 100,3 mortes por 100 mil habitantes, um índice mais de cinco vezes superior à taxa nacional, de 19,1. Logo atrás estão Eunápolis (BA), com 85,1, e Maracanaú (CE), com 80,7. 

De acordo com o Fórum, a presença dessas cidades no topo da violência armada não é fruto do acaso. O documento aponta que o interesse dos grupos criminosos por esses territórios obedece a uma lógica de mercado e infraestrutura. 

Para o coordenador de Estado e Crime Organizado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Leonardo Silva, enquanto a lógica de combate às organizações criminosas for a de guerra às drogas, continuarão sendo feitas ações que pouco impactam as atuais estruturas das facções criminosas. 

“Nossas instituições precisam ser capazes de impactar as estruturas complexas das facções, que hoje não cometem ações ilegais somente com drogas, mas também operam conectadas a outras redes, como as de lavagem de dinheiro, incluindo atuação diversificada em atividades econômicas ilícitas e mesmo lícitas”, detalhou Silva, para quem o combate, por parte do poder público, deve contar não apenas com a inteligência policial, mas também financeira a partir da integração de diferentes órgãos.

Corredores logísticos em rodovias do Nordeste

O primeiro padrão histórico identificado pela análise é a disputa por cidades do interior que são cortadas por rodovias de grande importância (como a BR-116, BR-101 e a Transamazônica). Essas vias funcionam como artérias vitais para o escoamento interno das drogas pelo território nacional. Cidades como Eunápolis, Jequié e Juazeiro, na Bahia, e Maracanaú, no Ceará, se encontram em cruzamentos rodoviários considerados estratégicos por organizações criminosas. 

Tomada de cidades litorâneas

O segundo padrão, considerado emergente, é a tomada de cidades litorâneas ou muito próximas a grandes complexos portuários, que servem como corredores de saída da cocaína para o exterior. Municípios como Cabo de Santo Agostinho (PE), a 20 km do Porto de Suape; Santa Rita (PB), próxima ao Porto de Cabedelo; e Caucaia (CE), vizinha ao Porto do Pecém, tornaram-se vitais para a exportação de entorpecentes. Há ainda o polo de Simões Filho (BA), que conta com o Porto de Aratu. 

A guerra por essas rotas foi ainda mais tensionada com a expansão de facções oriundas da região Sudeste em direção ao Norte e ao Nordeste, que chegaram alterando as configurações locais dos mercados ilegais. Além do tráfico internacional, esses grupos disputam de forma violenta o varejo de drogas em polos de intensa atração turística, a exemplo de Porto Seguro (BA), que figura como a quarta cidade mais violenta do Brasil em 2025 (taxa de 71,2). 

O impacto da guerra civil na vida dos moradores

O resultado dessa confluência de interesses ilícitos impõe regras de terror à população civil. O relatório revela um fenômeno crítico especialmente no Ceará, onde a guerra territorial entre facções com atuação nacional desencadeou a expulsão de moradores de suas próprias casas. Em cidades como Caucaia, Maracanaú, Maranguape e na capital, Fortaleza, famílias inteiras são banidas de seus lares a mando de grupos criminosos sob a justificativa de supostas alianças das vítimas com rivais. 

Segue abaixo o ranking completo das 10 cidades com mais de 100 mil habitantes que registraram as maiores taxas de Mortes Violentas Intencionais (MVI) em 2025: 

  1. Maranguape (CE): 100,3
  2. Eunápolis (BA): 85,1
  3. Maracanaú (CE): 80,7
  4. Porto Seguro (BA): 71,2
  5. Simões Filho (BA): 68,1
  6. Jequié (BA): 67,4
  7. Caucaia (CE): 66,6
  8. Cabo de Santo Agostinho (PE): 65,1
  9. Santa Rita (PB): 60,9
  10. Juazeiro (BA): 55,8
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